Protocolo exige que rebanho esteja habituado ao manejo de curral e que este priorize o bem-estar animal.

IATF Expressa

Protocolo com ressincronização precoce agiliza e amplia chance de prenhez em novilhas

Por Ariosto Mesquita

Resultados consistentes e mais rápidos na inseminação artificial em tempo fixo (IATF), com três oportunidades de emprenhar em apenas 42 dias. É o que promete o protocolo ReBreed21, que está sendo desenvolvido, ao longo dos últimos três anos, por meio de uma parceria entre a Universidade de Wisconsin (EUA), a empresa GlobalGen e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP).

Avaliações científicas realizadas na safra 2020/2021 indicaram taxa de prenhez de 73,8% com ReBreed21, ante um resultado de 63,2% obtido com o protocolo convencional (duas IATF´s). A partir desse experimento, pode-se afirmar que o novo modelo permite trabalhar com uma estação de monta mais curta e obter mais bezerros “do cedo”.

“O resultado é superior porque o protocolo confere mais uma chance às fêmeas. Além disso, ele é seguro, pois conseguimos fazer uma ressincronização bem precoce, sem risco para uma eventual prenhez obtida na inseminação anterior”, observa Roberto Sartori Filho, professor da Esalq, um dos responsáveis pelo desenvolvimento da tecnologia. “Pelo menos 10 pesquisadores estão trabalhando ou já se envolveram no projeto, mas é bom lembrar que a condução principal foi feita por João Paulo Andrade e por Milo Wiltbank”, ressalta, se referindo a dois pesquisadores da Universidade de Wisconsin.

Mais bezerros “do cedo”

De acordo com Sartori, a mais significativa avaliação a campo ocorreu na Fazenda Roncador, em Querência (MT), nos primeiros meses de 2020, envolvendo 844 novilhas com idade média de dois anos e peso de 300 kg. Desse total, 561 animais foram submetidos ao ReBreed21 (denominação que, na língua inglesa, remete à reinseminação 21 dias depois da anterior). Outras 283 fêmeas receberam Resynch33, considerado um protocolo de ressincronização clássica, com espera de 33 dias para diagnóstico de gestação.

“Nele, a segunda inseminação coincide com o dia da terceira no ReBreed21. Por questões científicas, temos de inseminar no mesmo dia para um correto efeito de avaliação. Por isso adotamos essa comparação. Respeitando a mesma janela de tempo de 42 dias, temos três procedimentos em um grupo e dois em outro”, justifica.

Ao final do período, a diferença a favor do novo protocolo foi de 10,6 pontos percentuais a mais na gestação acumulada. Das 283 novilhas submetidas ao Resynch33, 179 emprenharam (63,2%). Já no grupo que passou pelo novo protocolo, a gestação foi diagnosticada em 414 das 561 fêmeas inseminadas (73,8% de prenhez). “Uma das grandes vantagens desta história é que o protocolo permite produzir mais bezerros ‘do cedo’, ou seja, nascidos no início da estação de parição”, diz Sartori.

Essa afirmação leva em conta situações de reprodução em condições tropicais, como as do Brasil Central. Bezerros nascidos nos meses de agosto e setembro, teoricamente, terão melhor desempenho e crescimento, pois logo em seguida ao nascimento começa a estação das águas, elevando a oferta de forragem. Dessa forma, a vacada poderá se alimentar melhor, além de restabelecer condição corporal para a próxima estação de monta.

Detalhes do protocolo

Até a primeira IATF (D-0), os procedimentos são idênticos aos do protocolo convencional. No D-9, é colocado o implante de progesterona com tratamento à base de prostaglandina (PGF) e benzoato de estradiol (BE). Sete dias depois, o implante é retirado e o animal recebe cipionato de estradiol (CE), PGF e hormônio ECG. Em mais dois dias, a fêmea é inseminada e recebe o hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH).

Na sequência é feito o ReBreed21, detalhado pelo professor Sartori. “Doze dias após a primeira inseminação, as fêmeas recebem novo implante de progesterona. Neste momento, não sabemos se elas estão prenhes ou vazias. Sete dias depois (D19), recebem CE, ECG e retira-se o implante. No D-21, usamos ultrassom com doppler para ver se há corpo lúteo funcional. Nos casos positivos, os animais são considerados prenhes e não passam por nova inseminação. Os demais são submetidos a uma segunda IATF e recebem GnRH”, detalha.

O modelo tem sequência 12 dias adiante (D33), quando as fêmeas diagnosticadas com prenhez pelo doppler no D21 são novamente avaliadas para se confirmar ou não o estado gestacional. As vazias têm nova chance. “Essa checagem pode ser feita por ultrassonografia comum. Não necessita ser doppler”, avisa.

Também recebem um novo implante de progesterona os animais inseminados no D21. “Na semana seguinte, no D-40, aplicam-se CE, ECG e retira-se o implante. Após mais dois dias é feita nova avaliação por doppler. Os animais que não tiverem corpo lúteo funcional passam por uma terceira inseminação e GnRH”.

Praticidade total

Sartori chama atenção para a funcionalidade do protocolo no que se refere à gestão reprodutiva na fazenda. Todos os manejos caem necessariamente em dois dias específicos da semana. Dessa forma, a propriedade pode optar por trabalhar com um lote terças e quintas, outro às quartas e sextas e um terceiro aos sábados e segunda-feiras. Além disso, é possível manejar um grupo de manhã e outro à tarde. “Assim, o pecuarista consegue, em um mesmo curral, processar até seis lotes de animais de forma praticamente simultânea”, explica.

Indagado se esse modelo é aplicável a qualquer propriedade e categoria animal, o professor avisa: “Como são manejos intensivos e em curto tempo, deve-se usá-lo em fazendas onde os bovinos estejam mais acostumados ao manejo de curral e onde o manejo seja gentil, ou seja, atento ao bem-estar animal, evitando-se estresse. Neste aspecto, a equipe deve ser muito bem treinada, para não comprometer o resultado”.

Além da avaliação com novilhas na Fazenda Roncador, Sartori testou o modelo neste ano, “com bons resultados” na Esalq, em Piracicaba (SP), em um “um pequeno grupo de animais”. “Na próxima estação de monta, pretendemos tocar um experimento grande com vacas na Fazenda Figueira, propriedade da Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq), que fica em Londrina (PR). Queremos trabalhar com fêmeas Nelore paridas com peso entre 450 e 500 kg e idade entre três e oito anos”, diz ele.

O professor da Esalq está preocupado agora em fazer o que classifica de “ajustes finos” no protocolo. Apesar de garantir que o modelo já está disponível para uso, um ligeiro gargalo vem incomodando os pesquisadores. “Estamos detectando entre 5% e 30% de falso positivo em fêmeas na avaliação com doppler. Pode ser que realmente estivessem vazias no momento do exame ou pode ter ocorrido perda de gestação entre o D-21 e o D-33. Isso é aceitável em taxas de até 10%, mas acima disso começa a complicar. Vamos tentar conter o problema fazendo ajustes na dosagem de fármacos. A solução dessa questão provavelmente será o divisor de águas para que o novo protocolo seja usado em larga escala”, revela.

 

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