Com apenas 23% das fêmeas em idade reprodutiva inseminadas no Brasil, IATF ainda tem amplo espaço para avançar; em entrevista ao Compre Rural, Gabriel Sandoval, head de Marketing da GlobalGen, explica os ganhos, os gargalos e o futuro da reprodução bovina A Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) tornou-se uma das principais ferramentas para elevar a produtividade da pecuária brasileira. Ao permitir que o produtor programe a inseminação de grupos de fêmeas sem depender da observação individual do cio, a tecnologia concentra os nascimentos, acelera o melhoramento genético e oferece maior previsibilidade ao sistema produtivo. Apesar da consolidação da técnica, seu potencial ainda está longe de ser totalmente explorado. A IATF responde por aproximadamente 90% das inseminações bovinas realizadas no país, mas somente cerca de 23% das 70 milhões de fêmeas em idade reprodutiva são inseminadas.
Em 2025, o mercado brasileiro alcançou aproximadamente 24,7 milhões de protocolos comercializados, segundo dados apresentados pela GlobalGen com base no Departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP). O setor movimentou cerca de R$ 510 milhões.
Para compreender os avanços e os desafios da tecnologia, o Compre Rural entrevistou Gabriel Sandoval, head de Marketing da GlobalGen. A empresa completa dez anos em 2026 e ultrapassou a marca de 17 milhões de protocolos comercializados desde o início de suas operações.
Da pesquisa científica para dentro das fazendas A origem da GlobalGen está diretamente ligada ao desenvolvimento da própria IATF. A empresa tem entre seus sócios os pesquisadores norte-americanos Milo Wiltbank e J. Richard Pursley, reconhecidos pelos estudos que contribuíram para a criação do primeiro protocolo que permitiu a aplicação da inseminação em tempo fixo em escala mundial. Segundo Sandoval, a proposta da empresa, desde a elaboração de seu plano de negócios, em 2013, era aproximar a pesquisa científica da realidade encontrada nas propriedades brasileiras. A GlobalGen iniciou sua operação comercial em 2016, com atuação direcionada principalmente à IATF, mas também presente em programas de transferência de embriões e produção in vitro.
“A GlobalGen nasceu de uma conexão muito forte entre ciência, pesquisa, técnicos e criadores. Desde o início, o propósito foi aplicar a ciência à realidade brasileira e ajudar a pecuária de cria a se tornar mais eficiente”, afirmou. Para Sandoval, uma pesquisa somente alcança seu verdadeiro valor quando produz resultados no campo. Na reprodução bovina, isso significa transformar conhecimento científico em mais prenhezes, maior concentração de nascimentos e ciclos produtivos mais curtos. “De nada adianta a pesquisa ficar engavetada dentro da universidade se ela não for aplicada. Quando a IATF é bem utilizada, você tem mais prenhezes por área, maior concentração dos nascimentos e previsibilidade sobre quando os animais vão nascer, ser desmamados e chegar ao abate”, explicou.

Foto: Divulgação
IATF ajuda a organizar toda a produção O impacto da IATF não se limita à inseminação. Ao definir períodos para os procedimentos reprodutivos, o produtor também passa a organizar melhor o manejo sanitário e nutricional das matrizes, o nascimento dos bezerros, a desmama e a comercialização dos animais.
A concentração dos partos permite formar lotes mais uniformes. Também favorece o nascimento de maior número de bezerros no início da estação, aumentando o tempo disponível para o desenvolvimento dos animais até a desmama. “A tecnologia traz previsibilidade para todo o sistema. O produtor sabe quando a vaca será inseminada, quando os bezerros vão nascer e em que período serão desmamados. Isso encurta o ciclo de produção, aumenta a produtividade e melhora o resultado econômico”, destacou Sandoval. Outra mudança é a possibilidade de acelerar o melhoramento genético do rebanho. Em vez de depender somente dos touros disponíveis na propriedade, o pecuarista pode selecionar sêmen de reprodutores avaliados para características específicas, como peso à desmama, precocidade, fertilidade, habilidade materna e qualidade de carcaça.

Protocolos de IATF / Foto: Alvaro Fortunato
Tecnologia avançou, mas ainda não chegou a todos
A adoção da IATF cresceu de maneira significativa nas últimas duas décadas. Quando a GlobalGen iniciou suas atividades, em 2016, a técnica já era conhecida, mas ainda estava concentrada nas fazendas mais tecnificadas e em determinadas regiões produtoras. Hoje, o cenário é diferente. A tecnologia está consolidada e faz parte da rotina de grandes projetos pecuários. Ainda assim, não alcançou todos os municípios e está distante de uma parcela expressiva das propriedades rurais brasileiras. “A cada ano, a tecnologia passa a ser mais conhecida, mas ela ainda não chega a todos os municípios. Existe uma carência de qualificação e capacitação da mão de obra, o que limita a entrada da IATF em mais fazendas”, avaliou Sandoval. A monta natural permanece predominante em muitas propriedades, algumas delas sem uma estação reprodutiva bem definida. Nesses casos, os touros ficam com as matrizes durante períodos prolongados, reduzindo o controle sobre a concepção e a concentração dos partos. “Na monta natural, muitas vezes a vaca emprenha quando reúne condições corporais, sanitárias e nutricionais. Com a sincronização do ciclo e da ovulação, o produtor consegue estabelecer quando deseja inseminar e organizar todo o processo”, acrescentou.
Corte concentra 70% dos protocolos da GlobalGen
A pecuária de corte representa aproximadamente 70% dos protocolos comercializados anualmente pela GlobalGen, enquanto a atividade leiteira responde pelos 30% restantes. De acordo com Sandoval, essa diferença está relacionada principalmente ao tamanho dos rebanhos de cada segmento. O Brasil possui um número muito maior de fêmeas destinadas à produção de carne. No leite, o cenário também é mais diversificado, reunindo desde vacas especializadas mantidas em free stall e compost barn até animais cruzados criados em sistemas a pasto. Embora tenha menor participação em volume, o leite ocupa uma posição importante na estratégia da empresa. A GlobalGen atua em propriedades de alta produção por meio de programas voltados à fertilidade de vacas e novilhas. Entre os exemplos citados pelo executivo está a Fazenda Bela Vista, do grupo Leite Bela Vista. Conforme Sandoval, a empresa participa há mais de seis anos do programa reprodutivo da propriedade, com trabalhos direcionados tanto às vacas quanto às novilhas.

Montagem CompreRural
Por que somente 23% das fêmeas são inseminadas?
Para o head de Marketing da GlobalGen, ampliar o alcance da IATF depende de uma atuação conjunta entre indústrias, técnicos, associações de raças, instituições de pesquisa e entidades como a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). O desafio tornou-se ainda maior diante da possível redução do rebanho de matrizes, após dois anos marcados pelo elevado abate de fêmeas. Assim, o crescimento da tecnologia não dependerá apenas do aumento do número de animais, mas da maior adoção dentro do rebanho existente. A expansão pode ocorrer em diferentes níveis. Fazendas que ainda dependem exclusivamente da monta natural podem realizar a primeira IATF. As que já utilizam um protocolo podem avançar para a ressincronização, enquanto propriedades mais tecnificadas podem executar três inseminações e reduzir ou até eliminar o repasse com touros. “Quem não faz IATF pode passar a fazer uma. Quem realiza uma pode fazer a segunda, e quem faz duas pode avançar para três. Em muitos casos, a fazenda elimina a monta natural e acelera rapidamente o melhoramento genético”, afirmou. Outro entrave é a escassez de profissionais capacitados no campo. Para Sandoval, a pecuária precisará investir não apenas nos produtos e protocolos, mas também na formação das pessoas responsáveis por sua execução.
IATF custa entre R$ 100 e R$ 120 por matriz
O custo ainda é uma das principais resistências entre produtores que não adotaram a tecnologia. Segundo a estimativa apresentada por Sandoval, o investimento total para inseminar uma matriz, considerando sêmen, protocolo hormonal e mão de obra, varia entre R$ 100 e R$ 120. Na comparação apresentada pelo executivo, um bezerro melhorado pode ser comercializado por aproximadamente R$ 3 mil, dependendo da praça, da genética, do peso, do sexo e das condições de mercado. Dessa maneira, o investimento na IATF corresponderia a cerca de 4% do valor final do animal. “É um valor pequeno diante do quanto o produtor pode faturar com um bezerro geneticamente melhorado. Quando temos no mesmo curral animais de IATF e de monta natural com touro comum, a diferença de desenvolvimento pode ser percebida”, disse. O retorno, entretanto, não deve ser medido somente pela valorização individual do bezerro. A tecnologia estimula a escrituração zootécnica, a identificação das matrizes, o controle dos partos e a pesagem dos animais ao nascimento e à desmama. “O produtor começa a entender a vida daquele rebanho. Passa a trabalhar com dados, e o futuro da pecuária brasileira está justamente na gestão dessas informações e em como elas serão usadas para a tomada de decisão”, ressaltou.
Por que somente 23% das fêmeas são inseminadas?
Para o head de Marketing da GlobalGen, ampliar o alcance da IATF depende de uma atuação conjunta entre indústrias, técnicos, associações de raças, instituições de pesquisa e entidades como a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). O desafio tornou-se ainda maior diante da possível redução do rebanho de matrizes, após dois anos marcados pelo elevado abate de fêmeas. Assim, o crescimento da tecnologia não dependerá apenas do aumento do número de animais, mas da maior adoção dentro do rebanho existente. A expansão pode ocorrer em diferentes níveis. Fazendas que ainda dependem exclusivamente da monta natural podem realizar a primeira IATF. As que já utilizam um protocolo podem avançar para a ressincronização, enquanto propriedades mais tecnificadas podem executar três inseminações e reduzir ou até eliminar o repasse com touros. “Quem não faz IATF pode passar a fazer uma. Quem realiza uma pode fazer a segunda, e quem faz duas pode avançar para três. Em muitos casos, a fazenda elimina a monta natural e acelera rapidamente o melhoramento genético”, afirmou. Outro entrave é a escassez de profissionais capacitados no campo. Para Sandoval, a pecuária precisará investir não apenas nos produtos e protocolos, mas também na formação das pessoas responsáveis por sua execução. Foto: Eduardo Rocha
IATF custa entre R$ 100 e R$ 120 por matriz
O custo ainda é uma das principais resistências entre produtores que não adotaram a tecnologia. Segundo a estimativa apresentada por Sandoval, o investimento total para inseminar uma matriz, considerando sêmen, protocolo hormonal e mão de obra, varia entre R$ 100 e R$ 120. Na comparação apresentada pelo executivo, um bezerro melhorado pode ser comercializado por aproximadamente R$ 3 mil, dependendo da praça, da genética, do peso, do sexo e das condições de mercado. Dessa maneira, o investimento na IATF corresponderia a cerca de 4% do valor final do animal. “É um valor pequeno diante do quanto o produtor pode faturar com um bezerro geneticamente melhorado. Quando temos no mesmo curral animais de IATF e de monta natural com touro comum, a diferença de desenvolvimento pode ser percebida”, disse. O retorno, entretanto, não deve ser medido somente pela valorização individual do bezerro. A tecnologia estimula a escrituração zootécnica, a identificação das matrizes, o controle dos partos e a pesagem dos animais ao nascimento e à desmama. “O produtor começa a entender a vida daquele rebanho. Passa a trabalhar com dados, e o futuro da pecuária brasileira está justamente na gestão dessas informações e em como elas serão usadas para a tomada de decisão”, ressaltou.
Por que a taxa de prenhez varia tanto?
A média nacional de concepção na primeira IATF, segundo Sandoval, fica entre 52% e 55%. Algumas propriedades, entretanto, conseguem terminar a estação reprodutiva com índices de prenhez próximos ou superiores a 90% após sucessivas inseminações. Essa diferença não depende exclusivamente do protocolo hormonal. Condição corporal inadequada, deficiências nutricionais, doenças reprodutivas, pastagens de baixa qualidade, utilização incorreta dos medicamentos e falhas na inseminação podem comprometer os resultados. “A IATF é uma ferramenta tecnológica. O resultado depende da maneira como ela é inserida em um programa reprodutivo bem planejado. Não adianta entrar em uma fazenda com problemas nutricionais ou sanitários e esperar resultados superiores”, advertiu. O primeiro passo, portanto, é “arrumar a casa”. As matrizes precisam apresentar condição corporal adequada, receber nutrição compatível com a fase produtiva e estar protegidas contra doenças que provocam infertilidade, abortos ou nascimento de bezerros fracos. Depois disso, o programa deve ser ajustado às diferentes categorias. Novilhas, primíparas, secundíparas e vacas adultas possuem necessidades distintas e podem responder de maneira diferente aos mesmos tratamentos. “É possível trabalhar com protocolos diferentes para cada categoria. O técnico consegue fazer esses ajustes para buscar uma resposta melhor de cada grupo”, explicou Sandoval.
Banco reúne 3,2 milhões de dados reprodutivos
A GlobalGen reúne informações de campo em um banco com aproximadamente 3,2 milhões de registros, acumulados ao longo de seis anos. Os dados são enviados por cerca de 200 técnicos participantes do GlobalSync Group, grupo de estudos da empresa dedicado à reprodução bovina. As informações permitem comparar índices por região, categoria animal, condição corporal, protocolo e produtos utilizados. Ferramentas de inteligência artificial também são empregadas para analisar milhares de planilhas recebidas das fazendas. Segundo Sandoval, os resultados preliminares revelam diferenças significativas entre os estados. Enquanto determinadas regiões registram cerca de 55% de concepção na primeira IATF, outras podem alcançar aproximadamente 67%. “Existem vários Brasis dentro do mesmo Brasil. Temos diferenças de clima, vegetação, rebanhos e mão de obra. Tudo isso interfere nos resultados”, observou. Na avaliação do executivo, erros operacionais aparentemente simples podem reduzir a taxa de concepção. Entre eles estão a aplicação de um fármaco no dia errado, a troca de medicamentos dentro do protocolo e falhas no processo de inseminação.
GlobalGen mira 20 milhões de protocolos
Depois de ultrapassar 17 milhões de protocolos comercializados em dez anos, a GlobalGen pretende alcançar a marca acumulada de 20 milhões em 2027. A estratégia envolve ampliar a capilaridade da equipe, conquistar novas propriedades e aumentar o número de inseminações nas fazendas que já utilizam a tecnologia. Parte da equipe comercial da companhia possui formação especializada em reprodução e genética. Os profissionais também acompanham a execução dos protocolos, realizam inseminações e capacitam trabalhadores das propriedades. “A estratégia é aumentar os pontos de contato da empresa com o mercado, continuar fomentando a técnica por meio de parcerias e contribuir para a formação da mão de obra. Precisamos abrir novos clientes e fazer com que a IATF seja utilizada mais vezes”, afirmou.
Futuro será marcado pela intensificação
Sandoval acredita que a pecuária de corte seguirá um caminho semelhante ao percorrido pela atividade leiteira, com maior intensificação, controle de dados e adoção de tecnologias. Na visão dele, as fazendas que não acompanharem essa transformação poderão perder competitividade. O executivo pondera que essa é uma avaliação pessoal, mas considera inevitável a maior profissionalização da atividade. Com margens mais apertadas, pressão sobre o uso da terra e necessidade de produzir mais em áreas menores, eficiência reprodutiva e gestão deverão ganhar ainda mais importância. “A pecuária de corte brasileira está passando por um processo de intensificação. Vão permanecer mais competitivos os pecuaristas que adotarem tecnologia, seja em pastagem, sanidade, gestão ou reprodução”, avaliou. Para a GlobalGen, o crescimento futuro da IATF ocorrerá mesmo que o rebanho brasileiro permaneça estável ou diminua. A expansão virá da entrada de novas fazendas e da intensificação dos programas nas propriedades que já adotaram a ferramenta. “A pecuária brasileira evoluiu muito, mas ainda existe um espaço enorme para aumentar a eficiência produtiva. Queremos continuar conectando ciência, técnicos, criadores e o campo. Essa conexão vai guiar a GlobalGen nos próximos anos”, concluiu Gabriel Sandoval. Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.
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